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terça-feira, 15 de março de 2016

Quinze Contos, Quinze Anos de Redenção


"Ela perguntou-lhe por que não escrevia seus pensamentos. Para que, respondeu Duffy, com desprezo cauteloso. Para competir com fazedores de frases, incapazes de pensar com coerência durante sessenta segundos? Para submeter-se às críticas de uma classe média obtusa, que entrega a sua moral aos cuidados da polícia e sua arte aos empresários? " (Conto: Um Caso Doloroso)

Quinze contos incríveis, quinze anos com o livro parado na estante, quinze anos para me redimir.
"Dublinenses", segundo romance do irlandês James Joyce, Editora Biblioteca da Folha. Pessoalmente, tenho uma admiração por esse escritor. Acho ele muito a frente de sua época, gosto da maneira como escreve e das críticas severas que faz sem pudor a sociedade, que na época causou revolta nos círculos conservadores por sua descrição sem sentimentalismo das pequenas e grandes misérias da vida na Irlanda. "O centro da paralisia". Foi assim que Joyce definiu Dublin, justificando a escolha da cidade com cenário desta "história moral" de seu país. Concluídos em 1907, os contos de Dublinenses esperaram sete anos para serem publicados. Os editores temiam sua temática pouco ortodoxa, que incluía figuras marginais da sociedade, a linguagem forte e a menção a pessoas e lugares reais.
Quando o livro foi, enfim, lançado, acabou vítima de resenhas negativas, levando Joyce a lamentar-lhe o "solene fiasco". Seus contemporâneos ainda não estavam prontos para a proposta estética da obra, hoje considerada um dos primeiros marcos da literatura moderna e um dos maiores conjuntos de contos de todos os tempos.
Em narrativas curtas, o jovem irlandês James Joyce (1882-1941) presta aqui o seu tributo à grande tradição realista do século 19, sobretudo a Flaubert e Tchecov. Mas, como não poderia deixar de ser, o realismo de seus precursores é sutilmente subvertido nos pequenos retratos "fora de foco" de sua Dublin natal.
A trama dos contos pode ser vista como uma série de variações sobre temas irlandeses: o catolicismo rígido, a severa educação escolar, as relações familiares pautadas pela autoridade e a violência, o alcoolismo, a vida cinzenta da classe média, o nacionalismo diante da poderosa Inglaterra. Vistas em conjunto, essas ficções dão forma ao que o próprio escritor definiu como "uma história moral da Irlanda". História pública, mas vista predominantemente a partir de um ângulo privado: o escritório, a casa, o Irish pub. Sem chegar ao monólogo interior que marcaria as obras da maturidade, Joyce devassa os movimentos íntimos de duas personagens, confundindo o dentro e o fora, a impressão subjetiva e as miudezas cotidianas. Enfim, todos os elementos que seriam expandidos até a explosão em sua obras maiores: "Ulisses" e "Finnegans Wake".
Em 1987, o cineasta norte-americano John Huston fez o último filme de sua carreira baseado no conto mais famoso de "Dublinense": "Os mortos", incluído em incontáveis antologias dos maiores contos em língua inglesa de todos os tempos.
Os contos são grandiosos, questionam uma sociedade conservadora e, à frente disso, destrincham o que há de melhor e pior no homem: sua moral! Esta pode te punir ou te libertar para sempre...

Cláudia Trigo

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