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terça-feira, 25 de abril de 2017

Restos Mortais - Resenha


"Quando a gente está passando por uma coisa assim, não sabe direito o que está fazendo, mesmo achando que sabe, ela insistiu. E ninguém pode entender realmente o que está havendo, a não ser que tenha sofrido o mesmo. A gente se sente isolada. Vai aos lugares e todos a evitam, sentem medo de trocar olhares e conversar, pois não sabem o que dizer. As pessoas, então, murmuram entre si: 'Está vendo aquela ali? A irmã foi assassinada pelo estrangulador'. Ou então: 'Aquela é Pat Harvey. A filha foi uma das vítimas do maníaco'. A gente se sente como se estivesse vivendo numa caverna. Sente medo de ficar sozinha, medo de estar com os outros, medo de acordar, medo de ir dormir por saber o quanto é horrível acordar pela manhã. Corre feito louca, para ficar exausta. Em retrospecto, vejo que as coisas que fiz desde a morte de Henna foram meio loucas".

Mais um livro da Patricia Cornwell para a conta.
"Restos Mortais", da Editora Paralela, foi mais uma daquelas deliciosas leituras policiais de virar a noite. Eu, particularmente, gosto muito de literatura policial, e de quebra, gosto demais da escrita da Patricia. 
Esse é o terceiro volume da série Scarpetta - tem resenhas dos dois primeiros aqui e aqui - e sempre me surpreendo com seus finais.
Em "Restos Mortais", a história começa quando um casal de namorados, Fred e Deborah, somem em Richmon, Virgínia, sem deixar vestígios. Tudo indica que eles partilharão o destino de outros tantos jovens casais desaparecidos: serão encontrados meses depois, em estado de putrefação no meio do mato.
Com sua frieza profissional, Kay Scarpetta entrará na cena do crime e não deixará passar nenhum detalhe, indo a fundo em cada evidência descoberta.
A coleção Scarpetta pode ser lido fora de sua sequência, que não influência a leitura.
Recomendo para quem gosta de um bom livro policial.

Cláu Trigo

sábado, 22 de abril de 2017

Um Convite Para "A Convidada" - Resenha/Desafio


"Há dez anos que desistira, agora era tarde para recomeçar. Afastou a cortina e, na obscuridade dos bastidores, acendeu um cigarro. Ali pelo menos poderia descansar um pouco. Agora era muito tarde; nunca seria uma mulher que dominasse exatamente todos os movimentos dos corpos. O que poderia adquirir hoje não seria interessante: pequenos ornatos, enfeites, nada  de essencial. Era isso o que significava ter trinta anos; era uma mulher feita. Seria para todo o sempre uma mulher que não sabe dançar, uma mulher que só teve um amor na vida, uma mulher que nunca desceu, de canoa, os cânions do Colorado, nem atravessou a pé os planaltos do Tibete. Esses trinta anos não constituíam apenas um passado que arrastara todo esse tempo. Depositaram-se em volta dela, dentro dela, eram o seu presente, o seu futuro, a substância de que era feita. Nenhum heroísmo, nenhum absurdo, poderiam alterar essa situação. Evidentemente tinha muito tempo, antes de morrer, para aprender russo, ler Dante, visitar Bugres e Constantinopla".

Eu acredito que Simone de Beauvoir dispensa apresentações, principalmente em dias que nós, do "sexo frágil", lutamos tão bravamente em busca de mais respeito, mais dignidade, mais direitos. Acho Simone uma mulher muito à frente de seu tempo, corajosa, engajada. Muitos a consideram a maior pensadora mulher dos últimos tempos.
"A Convidada", Editora Círculo do Livro, é seu primeiro romance, publicado em 1943. Nele, é narrado os conflitos de uma mulher de trinta anos, que funciona como um alter ego da autora. O livro trata  de questões de filosofia existencialista, o amor em diversos ângulos, o ciúme. Aborda também questões humanas como a decepção, a raiva, frustração, individualidade. 
Esta obra é baseada no relacionamento de Simone com o filósofo e escritor Jean-Paul Sartre. 
A história é narrada nos meses que antecedem a Segunda Guerra Mundial e descreve a Paris daquela época, com a vibrante boêmia e personagens como intelectuais, artistas e escritores. Nos famosos cafés, são discutidos os conflitos humanos e existencialistas.
Considerada uma das sua melhores obras, "A Convidada" enfoca o triângulo amoroso entre Françoise e Pierre Labrousse com a jovem misteriosa Xavière, que chega em Paris e fascina ambos. O relacionamento serve para questionar o modelo burguês de casal e de família, assim como explorar os dilemas existencialistas da liberdade, da ação e da responsabilidade individual. 
Apesar de ser uma história que acontece na década de 40, as experiências humanas continuam atuais e presentes em nossa sociedade. No caráter histórico, a autora consegue como ninguém, descrever a sociedade boêmia da época de forma absoluta. 
Pode ser que no começo nos sentimos um pouco entediados e perdidos com os longos diálogos, mas a história vai criando seu rosto, seu próprio ritmo, e nos envolve de uma forma que nos imaginamos nos Cafés Parisienses, sentados em suas mesas nas madrugadas, com grandes intelectuais da época.
Recomendo demais!


"Se constatarmos que as mulheres de nossos dias confessam cada vez mais seus desejos e falam entre si sobre os homens, se repararmos enfim que cada vez mais elas tomam a iniciativa, tanto para iniciar como para romper uma relação, então eu não creio que seja realmente importante a diferença que pode haver entre um homem e uma mulher quando se relacionam".
(Simone de Beauvoir)

Cláu Trigo

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Resenha - Persuasão


"- Deveria ter percebido a diferença - respondeu Anne. - Não deveria ter suspeitado de mim agora; a situação é tão diferente, e minha idade tão diferente. Se antes errei, deixando-me levar pela persuasão, lembre-se de que foi pela persuasão exercida em nome da segurança, não do risco. Quando cedi, pensei ceder ao dever, mas nenhum dever poderia agora ser invocado. Casando-me com um homem que me fosse indiferente, todos os riscos seriam corridos, e todos os deveres violados".

Meu primeiro livro de Jane Austen, "Persuasão", da L&PM Pocket foi uma experiência boa. Não sei ainda dizer se Austen vai conseguir com seus outros livros, me conquistar, como Emily Brontë me conquistou, mas pretendo ainda esse ano colocar mais um livro seu em minha lista.
Há tempos estava querendo descobrir todo esse fascínio que muitos leitores tinham por essa grande escritora, e me aventurei a começar com seu último livro publicado. "Persuasão" foi concluído um ano antes de sua morte e publicado postumamente - em 1818. O romance contém fortes elementos autobiográficos, aborda o risco de se dar conselhos - e de segui-los.
Anne Elliot, a heroína de "Persuasão", é uma nem tão jovem solteira que, seguindo os conselhos de uma amiga, dispensara, sete anos atrás, o belo e valoroso (porém sem título nobre e sem terras) Frederick Wentworth. No entanto, o futuro sentimental e financeiro de Anne não é muito promissor, e quando o destino a coloca frente a frente com Frederick, agora um distinto capitão da Marinha Britânica, reflexões, conjecturas e arrependimentos são inevitáveis

terça-feira, 18 de abril de 2017

Necessário Conhecer: O Prisioneiro


"- É possível que os seus bravos fuzileiros acreditam sinceramente em que estão com a causa da justiça e da democracia. A lavagem de cérebro entre os comunistas é drástica, violenta, impiedosa. Mas a lavagem de cérebro nos países capitalistas tem sido suave, lenta e imperceptível. Começou há mais de um século e condicionou a maneira de pensar e sentir de suas populações, preparando-as até para coonestar o 'genocídio justificado', a aceitar as 'guerras santas'. Mata-se em nome de Deus, em nome da Pátria e em nome da Democracia, essa deusa de mil faces cuja fisionomia verdadeira ninguém nunca viu".

Que difícil falar de Erico Verissimo - é, disparado, meu autor preferido - mas, mais difícil é falar sobre esse livro. 
"O Prisioneiro", Editora Globo, é um livro triste, deprimente, realista, atual, verdadeiro. É aquele livro que quando terminamos, ficamos várias semanas pensando sobre ele, sobre o assunto, sobre a vida, sobre a nossa vida e de nossos semelhantes! Sobre valores, sobre futuro, passado e presente.
Um dia, em meados de 1967, Erico Verissimo leu numa revista a transcrição de um debate sobre os problemas que a China enfrentava, na época. Para ilustrar seu ponto de vista, um dos debatedores referiu-se ao caso de um oficial do exército francês que torturou um terrorista argelino para forçá-lo a confessar onde havia colocado uma bomba-relógio que explodiria dentro de algumas horas.
Fascinado pelos aspectos éticos e humanos do problema, Verissimo tomou-o como tema central de seu livro. Seria correto matarmos uma pessoa para salvar a vida de outras? Seria correto um ditador exilar e matar oponentes a seu regime, sob a alegação de estar protegendo o futuro da nação? Apesar de ter tomado por base a intervenção americana no Vietnã, o autor não quis prender seu romance a apenas um fato histórico e a duas nações. Sua intenção foi a de dar um caráter universal ao livro, questionando os absurdos da conduta humana e da brutalidade da guerra. 
Em nenhum momento no livro o autor dá nome aos bois. Não se cita nomes ou países, mas sabemos pelo curso da história, geografia, época que se trata da Guerra do Vietnã.
É um livro absolutamente atual, uma parábola moderna anti-guerra e anti-violência. 
Recomendo demais para quem gosta de Erico, e para quem precisa CONHECER Erico, um dos maiores escritores de nossa literatura!

Cláu Trigo

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Se Arrastando na Biblioteca de Almas


"Para alguns, poderia parecer insensível o modo como ela reprimia e afastava sua dor, mas eu já a conhecia bem o suficiente para entender. Ela tinha um coração do tamanho da França, e os poucos sortudos que eram amados por ele eram amados com cada centímetro quadrado. Porém, o tamanho de seu coração também o tornava algo perigoso. Se ela se permitisse sentir tudo, ficaria devastada. Por isso, tinha que domá-lo, silenciá-lo, calá-lo. Mandar as piores dores para uma ilha que estava rapidamente sendo ocupada por elas e na qual um dia iria viver".

Terceiro e último livro da série "O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares", a "Biblioteca de Almas", de Ransom Riggs foi perdendo o ritmo, para mim, e chegamos no último, meio sem conexão com a primeira história - que para mim, foi disparado, o melhor livro!
Me pareceu que o autor começou super bem - AMO o primeiro livro - desacelerou no segundo livro e se perdeu completamente, no último. Pelo menos, para mim, me pareceu uma encheção de linguiça sem fim. A história perdeu sem ritmo e, de quebra, seu encanto.
Depois de tanta aventura e descobertas, agora Jacob precisa resgatar os amigos peculiares e as ymbrynes da fortaleza dos acólitos. Junto com ele está Emma Bloom, uma menina capaz de produzir fogo com as mãos, e Addison MacHenry, um cão com faro especial para encontrar crianças perdidas.
Partindo da Londres dos dias atuais, o grupo vai percorrer as ruelas do labirinto do Recanto do Demônio, uma complexa fenda temporal que abriga todo tipo de vícios e perversões.
Confesso, com tristeza, que o volume dois e três da série não funcionou para mim.
Achei o primeiro ótimo, o segundo ok e esse último bem mediano, chato, fraco.
É uma pena, porque era uma série que tinha tudo para dar certo e que, no final, não funcionou legal, perdeu suas forças...

Cláu Trigo

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Uma Aventura no Mundo de Helena de Tróia


"O Destino de Helena como mulher espartana - segundo os que os autores da Antiguidade nos querem fazer crer - era passar de vítima de estupro a noiva-criança, amante infiel, concubina-troféu e, finalmente, esposa devotada. As fases de sua vida foram marcadas por características sexuais. Quase nenhuma atenção foi dada aos anos em que não houve algum tipo de encontro erótico inebriante. Não é coincidência que Helena desapareça da poesia de Homero tão logo deixa de ser perseguida por homens. A última vez em que a vemos na Odisséia, ela se dirige ao leito com Menelau no palácio de Esparta, quando o casal real regressa de Tróia. Homero não se interessa por ela depois que envelhece. Através das muitas reviravoltas de sua vida terrena, essa Helena da literatura encontra muitos homens e aprende a tratar, até bem mais, com as manifestações - e as consequências - da urgência carnal".

"Helena de Tróia",  de Bettany Hughes, Ediotra Record é um grande livro - literalmente - para quem gosta de mitologia e história grega. Me demorei um pouco no começo, pois acaba sendo muita informação para se arquivar e você precisa ir se situando na história, mas depois a leitura cria ritmo e se desenrola bem.
Acabamos sendo apresentada não só à um momento enigmático da história, que foi a Guerra de Tróia, mas também à uma cultura desde sempre, machista, preconceituosa e violenta. Descobrimos que, desde sempre, a mulher é vista apenas como um corpo, um ser inferior que está aqui para satisfazer seus 'donos'. Helena é, antes de um ser mitológico, uma mulher de fibra e inteligente.
E toda essa fascinação não é por menos.
Durante o livro, um estudo pra lá de detalhado, vamos encontrando alguns personagens intrigantes e outros questionáveis da mitologia grega, conhecendo a constituição do mapa geográfico da época, é muito legal.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Vermelho Como o Sangue


"Era uma vez, no ápice do inverno, enquanto flocos de neve caíam como penas do céu, uma rainha que costurava junto à janela, cujo caixilho fora feito com a escura madeira de ébano.
Enquanto ela costurava, contemplando a neve, a agulha picou seu dedo, fazendo despontar três gotas de sangue, que caíram sobre a neve. Ao ver a beleza do vermelho sobre o branco, ela pensou consigo mesma: "Quisera eu ter uma criança branca como a neve, vermelha como o sangue e negra como a madeira do caixilho desta janela"."

Vou ser sincera, comprei muito esse livro por causa da capa - que eu acho linda! Em seguida, a sinopse também ajudou. Mas o principal foi a capa.
"Vermelho Como o Sangue", da finlandesa Salla Simukka, Editora Novo Conceito, vai trazer uma releitura da Branca de Neve nos dias atuais. Esse fato é bem interessante e como não costumo ler muito livros desse estilo, fiquei bem animada pelo o que podia encontrar.
Lumikki Andersson é uma garota de 17 anos, que vive sozinha, longe de seus pais e que é bem independente. Estudando em uma escola conceituada de arte, ela prefere não chamar atenção e ficar meio que "invisível" para o resto das pessoas. Num dia em que ela só queria ficar sozinha, se envolve em um caso de cédulas sujas de sangue. À partir daí, Lumikki é arrastada para um mundo de policiais corruptos, traficantes perigosos e colegas insuportáveis - pessoas, essas, que eram as últimas que ela queria se juntar.