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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O Inusitado e Suas Peculiaridades!


"No entanto, se o rosto ia se desvanecendo em mim, ia se apagando como o de uma atriz que tinha parado de fazer filmes há muito tempo. Outra coisa que me acontecia era que, de tanto ver e contar filmes, muitas vezes eu os embaralhava com a realidade. E me custava lembrar se determinada coisa eu tinha vivido ou visto projetada na tela. Ou se havia sonhado. Porque acontecia que até os meus próprios sonhos eu confundia depois com cenas de filmes.
A mesma coisa acontecia com as lembranças mais lindas da minha mãe. As imagens dos poucos momentos felizes vividos com ela se desvanecendo na minha memória, inapelavelmente, como cenas de um filme velho.
Um filme em branco e preto.
E mudo."

Preciso confessar: comprei esse livro imaginando uma coisa e foi outra BEM diferente!
"A Contadora de Filmes", de Hernán Rivera Letelier, Editora Cosac Naify, digamos que foi uma agradável surpresa.
Quando comprei o livro - eu, cinéfila de carteirinha! Graduada e apaixonada! - achei que ia encontrar na história, sugestões, histórias, curiosidades e afins, mas não! Encontrei muito mais que isso, encontrei uma linda história de uma "verdadeira" contadora de filmes, mas o "filme" foi o menos importante aí.
Não comece a leitura achando que você, como eu, encontrará sugestões de grandes filmes, roteiros da sétima arte, história de grandes diretores e suas peculiaridades, não. Se for por esse caminho será sua maior decepção. O caminho é outro, mas vale tão a pena quanto!
Pensei numa coisa, comprei, e acabei encontrando outra. Talvez, melhor. Pelo inusitado.
Gosto muito de ser surpreendida. O tempo todo! Para tudo! Confesso que fui...
Para Borges, a missão de um escritor era dar nome ao que ainda não havia sido nomeado. Muitos escritores cumpriram essa tarefa, em diferentes latitudes. Guimarães Rosa, incorporando o não dito do sertão mineiro. Machado de Assis, revelando o Rio antigo. Kafka, uma Praga fantástica. Joyce, os meandros de Dublin e o além-mar. Faulkner, a cidade que ele inventou no Mississipi. Cormac McCarthy, a fronteira entre o México e os Estados Unidos.
Outros mesclaram esse desejo de desvendamento com a atração que o cinema lhes suscitava. É o caso de escritores cinéfilos como Raymond Chandler, Manuel Puig, Rubem Fonseca ou Paul Auster. Para esses, capturar as sombras e o pulsar de Los Angeles, Buenos Aires, Rio de Janeiro ou Nova York passa a ser tão premente quanto identificar os reflexos - o negativo - dessas mesmas cidades. É no chiaroscuros dos labirintos de becos e ruas, mas também das narrativas cinematográficas, que seus personagens evoluem e se perdem.
Hernán Rivera Letelier é, como esses autores, um escritor que construiu uma obra única e singular. O escritor dá nome aos povoados que se desenvolveram no deserto chileno do Atacama, ao lado das indústrias de salitre. Povoados de mineiros, de quem ele fala com raro conhecimento de causa. Filho de mineiros, viveu dessa profissão antes de virar escritor.
O cinema também está no centro de suas histórias. Em muitas dessas comunidades do Atacama, conhecido como "o deserto mais solitário do mundo", os filmes que passavam nas salas da cidade eram a única maneira de mergulhar em outras realidades, distantes da aridez asfixiante do deserto.
"A Contadora de Filmes" é um relato comovente, que fala dessa convivência entre uma realidade áspera e a possibilidade de transcendê-la. Final dos anos 50: Maria Margarita é a filha menor de uma família de mineiros, para quem a sessão de cinema aos domingos é a ocasião para descobrir a última obra-prima de Chaplin, as tramas lacrimejantes dos filmes mexicanos, a saia esvoaçante de Marilyn Monroe ou as novas aventuras de John Wayne. É, também, o lugar onde as pessoas se encontram para namorar, mostrar a camisa recém comprada, trocar informações sobre a vida que corre. É a conversa do jantar, o contato com o mundo.
O acidente de trabalho sofrido pelo pai corta a renda familiar pela metade, e um só filho será escolhido para ir ao cinema aos domingos. A missão: contar a história do filme para o resto da família. É nesse momento de ruptura que Maria Margarita descobre o talento que tem para narrar. Ela se torna, pouco a pouco, a memória cinematográfica de sua região.
Além desse embate fascinante entre a realidade e imaginação, "A Contadora de Filmes" é um relato delicado sobre a descoberta da puberdade e as agruras da adolescência. É, também, uma narrativa reveladora sobre a tensão entre classes sociais, sobre o abuso do poder e a violência que resulta da convivência de contrários no mesmo espaço geográfico.
Quando a narrativa avança no tempo, passando a incorporar as mudanças resultantes da televisão e introduzindo o trauma político causado pelo golpe militar de Pinochet, a crise dos personagens e a do país se fundem. O relato se universaliza. Compreende-se que, mesmo num canto remoto do mundo, nada mais será como antes. O tempo passa a ser personagem da trama. Advém daí a sensação de que, ao ler o livro, compartilhamos uma vivência maior, de um relato amplo e fecundo, que transcende a aparente simplicidade do texto e da sua arquitetura. Porque dar nome ao que ainda não foi nomeado é também tentar descobrir o que somos, que memórias nos habitam, que ausências nos formam.
A obra de Letelier propicia também uma forma de resistência. Com a mecanização, as cidades surgidas no Atacama se transformaram pouco a pouco em cidades fantasmas. As histórias do autor repovoam essas cidades, dão-lhes uma possibilidade de permanência, estabelecem uma memória coletiva que resiste ao tempo.
Não se trata propriamente de um livro sobre filmes, mas de histórias que poderiam ser sim, uma sétima arte!...
É isso, então!
Fica a dica.

Cláu Trigo!

24 comentários:

  1. Olá
    Eu não conhecia esse título, mas parece ser uma leitura interessante, e que bom que se tornou uma agradavel surpresa para você. Adorei poder conferir seus comentários por aqui. Dica anotada. Boas leituras!
    Beijos, Fer
    www.segredosemlivros.com

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  2. Os livros da Cosac sao sempre incriveis. Eu nunca tinha ouvido falar desse título e pela capa não parece ser tão incrivel assim, que grata surpresa! Sua resenha foi muito aberta e contou tudo nos minimos detalhes, eu adorei a dica.

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  3. Nossa, que livro diferente. Não é meu estilo de leitura, mas achei a capa bem convidativa ao enigmático..

    www.vivendosentimentos.com.br

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  4. Eu gostei do enredo, parece ser profundo ao levar todas as estórias dos filmes à realidade dura da família. É um livro que eu leria com certeza, pela capa, pelo tema e pela resenha. Adorei.

    *☆* Atraentemente *☆*

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  5. Ainda não conhecia o livro e achei mega interessante este relato histórico dos filmes. Acho que seria um presente perfeito para os amigos cinéfilos. Quero ler e ter!!!
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

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  6. Olá Cláu,
    Eu gosto de cinema, mas não sou viciada e nem fanática por isso. Não fiquei interessada nessa obra, mas muito contente por saber que a leitura foi uma grata surpresa para ti e acho que a obra agregou muito.
    Vou deixar essa dica passar.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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  7. Olá!! :)

    Eu confesso que não fiquei muito interessado em ler este livro... Também não conhecia...

    A verdade e que não sou o maior fa de cinema e o livro não pareceu fazer muito o meu género! :) que bom que gostaste! Mas vou passar a dica...

    Boas leituras!! ;)
    no-conforto-dos-livros.webnode.com

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  8. Oi!
    Não conhecia o livro até então mas já fiquei encantada com a premissa. Não sou super fã de cinema mas me pareceu que a trama vai muito além dos filmes e tem uma história muito emocionante que me deixou curiosa. Não sei se o lerei mas se eu tiver a oportunidade não a deixarei escapar.
    Beijos!

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  9. Olá,
    Não conhecia a obra e fico feliz que tenha sido uma agradável surpresa para você.
    A premissa em si não chama muito a minha atenção. Gosto bastante de ir ao cinema, mas não conheço nada acerca desse universo e como tudo acontece.
    A trama parece ser muito além dos filmes e pelo que pude ver bem emocionante e envolvente.

    http://leitoradescontrolada.blogspot.com.br/

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  10. Oie!
    Confesso que quando vi a capa pensei que o livro seria de uma forma, e não sabia que se tratava disso. Com certeza, será uma leitura bem diferente dos que estou acostumada, e vou gostar da trama. Bem interessante.
    Bjks!
    Histórias sem Fim

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  11. Eu já conhecia o livro e tenho uma grande curiosidade com ele. Faz algum tempo que alguém (não me recordo quem) me contou sobre a história dele e na ocasião eu me interessei, mas até hoje não comprei para ler. Gostei muito de ver a sua opinião e suas impressões com a leitura. Pela capa eu também esperava uma história completamente diferente, mas ainda bem que não julgo um livro pela capa e sempre busco mais informações sobre ele, só que no meu caso eu conheci a história primeiro e a capa só depois.

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  12. Olá! Uau, gostei muito do enredo proposto nesse livro. Parece ser bastante consistente, com uma boa base histórica e uma protagonista real, que poderia ter existido em qualquer lugar. Parabéns pela resenha, você conseguiu apresentar o livro de um modo completo, alternando entre sua opinião e o enredo do livro. Gostei.

    Beijos!
    www.myqueenside.com.br

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  13. Olha, sinceramente, achei uma coisa muito complexa pra mim, que foge ao meu gênero de leitura, principalmente essa parte em que você disse que a crise dos personagens e a do país se fundem. Fora o período da segunda guerra, outros períodos históricos normalmente não conseguem minha atenção, e tenho receio da minha leitura ser prejudicada por isso. A parte de um só filho ser escolhido para ir ao cinema e a garota se descobrir uma boa narradora achei legal, mas não leria.

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  14. Olá! Quando compramos um livro pensando que é uma coisa e é outra, isso pode nos surpreender ou decepcionar. Que bom que você gostou. Eu adoro cinema, pelo nome do livro realmente parece que ele iria citar grande filmes e tals. Ainda bem que você me avisou que não é isso. Haha' A obra não despertou meu interesse, talvez um dia mude de ideia. Beijos'

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  15. Oi, tudo bem? É sempre uma maravilha quando o livro que adquirimos se torna uma grande e agradável surpresa para nós. Vejo muitos elogios a obra e fico feliz que tenha gostado. Não leria, pois não é do meu interesse, mas obrigada pela dica. Beijos.

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  16. Olá Cláu
    Confesso que se passasse pela livraria e visse a obra, não me despertaria o interesse justamente por pensar em primeiro momento que a obra era do jeito que você pensou inicialmente, mas ao ler sua resenha, me encantei com o curso da narrativa, por isso, acho que me arriscaria nessa leitura.
    Bjim!
    Tammy

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  17. Olá!!!
    Eu não tinha entendido a sua resenha (de início), então tive reler para entender sobre o livro e o conteúdo contido nele.

    O livro engana pela capa, mas não pela sinopse. Ele tem uma premissa linda...e bem tocante. Eu fiquei refletindo sobre essa obra. Vou procurar por mais resenhas e ver se a narrativa e vai me agradar de fato.

    Beijoss, Enjoy Books

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  18. Olá.

    Nossa, sei o tanto que é ótimo nos surpreendermos positivamente com estas histórias.

    A premissa trazida pelo livro é maravilhosa. Não conhecia o titulo ainda mas pretendo conhecê-lo, pois amei os detalhes que você nos contou sobre a obra.

    Parabéns pela resenha e obrigada pela dica.

    Abraços!

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  19. Fiquei impressionada com a riqueza da leitura, com tudo que você descreveu, todavia, não me interessei pelo livro. Acredito que ele tenha um nicho muito específico, di qual você faz parte e eu não. Que bom que você se surpreendeu positivamente, é ótimo quando isso acontece.

    Beijos

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  20. Olá!
    A história me pareceu bem legal. Uma menina que vê os filmes e depois os conta para sua família e bem diferente. Vemos que mesmo com a crise que a família passa eles não deixam de buscar estar perto da arte. Saber um pouco da época que se passa a história é outro ponto positivo.
    A sua resenha está muito boa.
    Beijinhos!

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  21. Oi,tudo bem? Achei a história bem diferente e adorei o tema proposto e já imagino a menina contando o filme para seus famíliares e a forma como ela narra. Fiquei bem curiosa em como será feita essa narração e pretendo dar uma chance ao livro em breve.
    Bj

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  22. Não conhecia esse título e amei a experiência de ler suas experiências. Você escreve com a alma

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  23. Oi,

    Ainda não conhecia esse livro. Achei a historia bem interessante, poder ver como eram outras épocas, enfim, já anotei a dica.

    Abs,

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  24. os relato que o livro traz foi o que mas me cativou a me interessar pelo livro, achei a estória incrível e como vc ao olhar para capa não imaginava tamanha estória que esse livro iria trazer e me fascinei completamente.

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