Menu

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A Letra Escarlate - Projeto "Um Livro Por Dia" #4


"O seu sofrimento não seria mais profundo se as folhas das árvores cochichassem entre si a negra história, se a brisa do estio a murmurasse, se as ventanias do inferno a brandassem! Outra tortura: encontrar o olhar de uns olhos novos. Quando os estrangeiros fitavam, curiosos, a letra escarlate - e nenhum deixou jamais de fazê-lo - era como se agravassem outra vez na sua alma. Tanto que, na maioria dos casos, ela dificilmente conseguia evitar o gesto de cobrir o símbolo com a palma da mão."

Mais um livro do desafio "Um Livro Por Dia", dessa vez resolvi juntar dois desafios em uma resenha só. Além da leitura do clássico "A Letra Escarlate",de Nathaniel Wawthorne, da Editora Martin Claret, também resolvi logo em seguida do término da leitura, assistir aos dois filmes adaptados - o americano e o alemão. O outro projeto que tínhamos em mente de fazer era comparar a literatura com a 7ª arte. E confesso: foi uma grande maratona.
Vamos então primeiramente ao livro. Difícil, bem difícil de ler. Um livro de 1850 que conta uma história ocorrida no final do século XVII. Em vários momentos precisei parar para refletir, tomar uma água, respirar e me concentrar, de novo! Mas acho que valeu a experiência. É um livro de poucas páginas, mas lotado de palavras difíceis e muita, muita descrição de pessoas, locais, fatos.
Como um todo, a história é boa porque mostra uma realidade que hoje desconhecemos, mas que para a época era vista como normal, principalmente numa América recém colonizada por ingleses e praticamente toda puritana, onde religião e política se confundiam e se misturavam. O poder ali aplicado era de igual para igual.
Temos no livro a história de Hester Prynne, uma jovem inglesa que é posta em liberdade 3 meses após dar a luz uma criança fruto de um relacionamento proibido. Sobre o peito do vestido, marcada em pano escarlate, aparece a letra "A".
Hester é uma mulher casada que vem para a América antes do marido para se alojar enquanto o mesmo fica de viajar depois de resolver alguns assuntos pendentes na Inglaterra. Meses depois sua chegada Hester engravida e se recusa veementemente a revelar o nome do pai dessa criança.
Numa sociedade extremamente puritana, ela é afastada dos colonos e vista como uma prostituta indigna de merecer qualquer gesto, compreensão, afeto ou qualquer sinal de aproximação de algum membro daquela comunidade.
Os anos vão passando nessa terminante tortura, o autor vai trazendo aos seus leitores a degradação de uma sociedade extremamente moralista, a luta entre o amor puritano da religião e a religião pagã do amor. Mas o livro não é só um retrato da Nova Inglaterra: é um retrato do próprio Hawthorne, homem com uma alma de pagão num corpo de puritano. Há um pouco do autor em todas as personagens do livro: na severidade dos juízes que puniram Hester pelo seu pecado, e na mesma Hester Prynne que usava o símbolo de sua dor como uma consagração sobre a roupagem do seu amor.
No livro Hawthorne mostra duas espécies de pecado: o do amor contra as convenções e os das convenções contra o amor. E, dos dois, o último é para o autor o menos perdoável.
Agora falando dos filmes, tive duas experiências opostas!
No filme americano do mesmo nome, de 1995, com Demi Moore e Gary Oldman (lindíssimo, diga-se de passagem!), direção de Roland Joffé, é tudo o que vocês possam imaginar, menos uma adaptação do livro. Esqueçam o que vocês leram se querem gostar do filme. O diretor só aproveitou o nome do livro e dos personagens, mais a localização e época. Do resto, meus amigos, deixem pra lá. Não há similaridade entre filme e livro. Não consigo nem enxergar como uma releitura. É apenas um filme que utilizou detalhes do livro. E acaba nisso. O final? Também é o jeito americano de acabar com tudo que é bom...
O filme alemão - tão parado quanto o livro! -, é de 1973, e tem no elenco Senta Berger, Hans Christian Blech e Lou Castel, e tem a direção de Win Wenders. Esse já é uma outra história. Tirando alguns detalhes modificados - que fazem parte de qualquer adaptação - o filme faz jus ao livro. É uma ótima releitura, com muito mérito ao diretor que se atento à vários detalhes importantes do livro e que passou com singela delicadeza para a telona.
Não há necessidade de me pronunciar aqui qual dos dois eu recomendo, não é mesmo?...
Fica aqui a dica então...
"A Letra Escarlate", um livro difícil, mas que deve ser lido. E sim, apesar de tudo, dá para ler em um dia. São poucas páginas - cerca de 225 - mas no formato pocket. E se tiverem de férias, ainda dá para encaixar o filme. E, vamos que vamos, madrugada à dentro!
Mais uma dica de um livro por dia, mais um clássico para a lista!
Divirtam-se.

Cláu Trigo

Nenhum comentário:

Postar um comentário