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terça-feira, 21 de março de 2017

Desvendando as Teias de Spider - Resenha/Desafio


"Quando tudo começou a se tornar amargo? Quando tudo começou a morrer? Houve uma época em que fomos felizes; suponho que a decadência tenha sido gradual, resultado da miséria, da monotonia e da sujeira sombria daquelas ruas e vielas estreitas. A bebida também desempenhava seu papel, assim como a personalidade de meu pai, sua natureza inerentemente sórdida, a morbidez que se alojara dentro dele e que acabou por infectar minha mãe e eu como se fosse uma doença contagiosa".

Normalmente eu nunca assisto um filme que tem livro antes de lê-lo. Gosto sempre de ler primeiro e depois, dependendo, assisto o filme. Com "Spider", de Patrick McGrath, da Editora Companhia das Letras, fiz o percurso contrário. Alguns anos atrás acabei comprando o filme e assisti sem muitas informações, na verdade, só descobri o livro anos mais tarde.
Nesse ano o autor entrou no nosso desafio do Blog e resolvi incluí-lo na minha lista, já que tinha gostado muito do filme. Confesso que deu um trabalho enorme para encontrá-lo. Ele só existe em Sebos, e acabei conseguindo comprá-lo pela Estante Virtual
O livro é sensacional. É muito doido de ler, assim como nosso personagem, Dennis Cleg. O escritor desenvolve com tanta exatidão a história que você se vê dentro dela. Enlouquecido também.
O ano é 1957, e Spider volta a Londres após prolongada ausência. Duas décadas - e uma Guerra Mundial - separam o adolescente do sujeito que se instala numa precária pensão do East End, bairro pobre da capital inglesa. Ali, ele começa  a desenrolar o longo fio da assustadora história de sua vida.
Em seu diário, Spider cria estranhas ambiguidades entre real e o universo da imaginação. Após problemas domésticos na adolescência que culminaram com a perda da mãe, ele conta que foi para o Canadá. Seria um relato autobiográfico comum, se não tivesse a mente de Spider tecido uma teia de angústias, perplexidades e delírios em descompasso com a lógica. Aos poucos, nós leitores, vamos percebendo que as coisas não podem ser exatamente como descreve nosso perturbado narrador.
O Canadá construído em sua memória é feito de pavilhões onde as regras de conduta são rígidas - não se pode usar cinto nem cadarço no sapato. De volta a Londres, nem as várias camisas vestidas umas sobre as outras nem os cigarros fumados em série se mostram capazes de aliviar o terror da lembrança de um obscuro episódio que mudou sua vida e que o persegue obsessivamente.
A esse isolamento psicológico corresponde uma ânsia de liberdade que o faz sair pelas ruas à procura de conforto afetivo. Quando uma aflitiva desarticulação entre cérebro e corpo não lhe paralisa os movimentos, Spider perambula sem rumo pela cidade deserta e seus canais imundos. À medida que os fragmentos desconexos começam a fazer sentido, a concorrência da narrativa se mostra ilusória e desmorona. Resta um vazio assustador, povoado de fantasmas e pavores crescentes.
O autor consegue, de forma brilhante, fazer com que entremos nesse mundo de Spider e consegue deixar a gente tão paranoico quanto ele. É constrangedor nos vermos tão expostos quanto o nosso personagem.
É um livro super recomendado.Não existe muita ação,e por isso algumas pessoas podem achá-lo um pouco devagar, mas esse é o sentido da história, é viver nesse mundo duvidoso e inadequado onde a loucura é constante e a dúvida, cruel.
Bem-vindos ao mundo de Dennis Creg, ou Spider para os íntimos.

Cláu Trigo                      

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