Resenha: Rugido

Título: Rugido
Autor(a): Cecelia Ahern | Tradutor(a): Paula di Carvalho
Editora: Harper Collins Brasil
Páginas: 336 | Ano: 2022
Onde Comprar: Amazon
Sinopse: Essa coletânea de contos é protagonizada por trinta mulheres completamente diferentes, mas com muito mais em comum do que imaginam. A partir das rotinas, dos constrangimentos e dos desejos mais profundos, cada história nasce de ditados populares ou metáforas para criar situações exageradas. E, por meio de realismo mágico e de uma literalidade satírica inigualável, ganham um tom divertido e envolvente.



Não faz muito tempo que mora nesse país, e as outras mães da escola a observam, mesmo que finjam o contrário. O encontro diário no portão da escola a intimida. Ela se flagra prendendo a respiração e apertando o passo ao ver o portão; baixando o queixo e evitando olhares, ela aperta as mãos das crianças com mais firmeza ao levá-los às aulas de aula. As pessoas dessa boa cidade se consideram educadas e corteses, então raramente algum comentário é feito, mas elas transmitem seus sentimentos pelo clima que criam. O silêncio pode ser tão ameaçador quanto as palavras. Consciente dos olhares de soslaio e dos silêncios desconfortáveis, ela tolera a tensão enquanto a cidade sorrateiramente cria planos e regulamentações que dificultam ainda mais que uma mulher como ela esteja em um lugar como esse, que uma mulher com a aparência dela se vista como ela num lugar como esse. Seus preciosos portões escolares. Os portões protegem seus filhos, e esses aglomerados de mães são seus guardiões. Se elas ao menos soubesse o quanto têm em comum."


Que eu já li praticamente todos os livros da Cecelia Ahern, isso não é novidade para ninguém que nos segue. Já li os romances, os dramas, até a distopia dela. Mas um livro de contos, ainda não tinha acontecido. E é o que encontramos em Rugido.
Em 30 contos curtos, a proposta aqui é dar espaço para  mulheres, desde histórias sérias, tristes, até as mais fantasiosas, malucas. A fantasia é usada como metáfora para apresentar problemas reais que mulheres de diversos lugares, etnias e vidas passam a centenas de anos.
Eu adorei a leitura. Óbvio que, como qualquer livros de contos, teremos uns melhores que os outros. Faz parte nesse tipo de experiência. Vou comentar rapidinho sobre os contos que mais gostei.

A Mulher que Desapareceu Lentamente
No primeiro conto do livro, a personagem, que não tem nome, foi diagnosticada com um raro e complexo distúrbio genético que faz com que os cromossomos do seu corpo desapareceram. Ela tá bem de saúde, os órgãos funcionando bem. Mas as pessoas não a enxergam. Conforme o tempo vai passando, ela via ficando cada vez mais transparente, invisível.
Isso porque Cecelia utiliza do realismo mágico para transformar a invisibilidade das mulheres de meia-idade na sociedade em uma condição física literal que afeta tanto a protagonista, como outras mulheres.
Ela se torna estudo de pesquisa de vários cientistas, mas ninguém consegue resolver o problema dela. Até que a professora Elizabeth Montgomery, dona do projeto Farol Montgomery de Avanço Para Mulheres aceita investigar o seu caso. E entre diversas outras mulheres com o mesmo problema, a professora explica que ela está desaparecendo por causa da sociedade, que vai diminuindo os espaços ocupados por elas conforme elas vão envelhecendo.
Um conto muito inteligente!
A Mulher que Criou Asas
Terceiro conto do livro. Outra personagem sem nome. Agora uma mãe refugiada, que sente todos os dias os olhos das outras mães a julgando por causa de suas vestimentas, quando vai levar os filhos à escola. Até que ela começa a desenvolver asas nas costas. E o final desse conto, que coisa linda! Com certeza, o melhor do livro todo.
A Mulher que Semeava Dúvidas
12º conto. Harriet mora em Prairie Rock, uma comunidade de somente 100 casas distribuídas em 20 hectares, autônoma e autossustentável. Os moradores eram responsáveis pela manutenção da própria área, desde as casas, até o terreno e os pomares, vinhedos e campos. Quando um proprietário morria, caía sobre os descendentes vivos a responsabilidade pela venda da casa e do terreno; ao mesmo tempo, um pedaço de hectare é colocado à disposição para ser cultivado.
Harriet morou a vida toda ali. Nasceu, se casou aos 18 com Deacon, que ela conhecia desde o primeiro dia de escola. A anos a comunidade não via um novo rosto. Até que, sua mãe adoece, falece e na sequência, quando seu pai adoece também, chega Jacob para ajudar no cuidado do terreno.
Quando seu pai falece, Harriet começa a ficar cheia de dúvidas sobre o que plantar nos dois hectares que ela ganhou. Enquanto ela só planta dúvidas atrás de dúvidas, uma verdade se revela para ela. E isso vai trazer o final mais bonitinho desse livro todo. Que conto fofo!
A Mulher que Usava Rosa
18º conto. Esse, além de bem interessante, é engraçadinho com essas questões da mulher só usar rosa e homem só usar azul ou cores neutras. Alô Damares, tem alguém querendo ser você!
Num contexto distópico, a história satiriza estereótipos do gênero, onde nessa sociedade, todas as mulheres só usam rosa - na roupa, nas unhas, nas paredes de casa. E a nossa protagonista começa a se incomodar com essa situação, a ponto de não aceitar mais nenhuma gentileza de ninguém, principalmente dos homens. Mas ela vai percebendo que também não pode ser radical que nem os outros são com ela.
A Mulher que Falava a Língua das Mulheres
Conto 21. Esse aqui é muito f#d@! Cecelia critica toda a estrutura de poder que existe nos países, onde 90% é formado por homens criando leis para e sobre mulheres. Mas nesse cenário, o comitê eleitoral masculino decide recrutar uma mulher para recuperar votos femininos. Só que o maior diferencial está no final, que traz uma reviravolta interessantíssima.
A Mulher que Protegia Gônadas
O 23º conto é bem curto e bem engraçado. A critica da vez é o controle sobre os direitos reprodutivos, mas para isso, ela inverte os papéis de gênero. Agora, um homem precisa de uma autorização de um tribunal feminino para realizar uma vasectomia.
A Mulher que Desmanchou
Por fim, o último conto que vou comentar é o 28º, o antepenúltimo do livro. O tema tratado aqui é sobre a pressão psicológica e o esgotamento que as mulheres passam, a ponto de sentirem que estão se desfazendo. E aqui isso literalmente acontece.
A mulher dessa história está sobrecarregada pelas cobranças do dia a dia e pelas responsabilidades acumuladas. Tentando esconder suas dores e estresses, ela começa a se desmanchar. Primeiro é um dedo que solta, depois o resto do corpo se desfaz em fios.

Espero que o post não tenha ficado muito longo. Mas é para mostrar o como esse livro é bom e interessante. A ideia dele é realmente muito boa. E a Apple TV aparentemente gostou também da ideia, porque fizeram uma adaptação em série. Com 8 episódios e um elenco com grandes nomes, como Nicole Kidman e Cynthia Erivo, ela trouxe alguns dos contos para a tv. Se foi bem adaptada eu ainda não sei porque não consegui tempo para assistir, mas fica a sugestão.

Até a próxima e boa leitura!

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