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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Segredos

Madrugada.
Perdida na imensidão de concreto e escuridão de uma metrópole fervilhante. Olho pela janela e imagino o que se passa em cada janelinha de cada prédio que vejo.
Cada luz, acessa ou apagada, é um universo rodeado de incertezas, paixões, lágrimas, risos...
O que acontece nessa singularidade toda é um enigma que gosto de imaginar. Como seria a madrugada de cada pessoa numa véspera de feriado, quando a noite é uma criança cheia de dengo e desejos.
Desejos?
Hum... Sei!
A cidade ferve num frenesi alucinado.
Buscas incansáveis.
Sonos tranquilos.
Paixões arrasadoras.
Choros incontroláveis.
Procuro pelo novo. O inexistente. Alguma coisa que me faça viva, me faça bela, me faça sã.
Me faça acreditar que sou única em uma cidade de milhões de habitantes.
Me faça enxergar o belo no meio da escuridão.
Deixa eu acreditar que posso tudo, tudo mesmo...

"Prometo não avançar o sinal vermelho dos teus olhos e quando você pedir pra parar, baby, eu paro." (Léo Maia)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Reencontro

Pós eleições.
Acordei hoje como se a vida fosse pequena demais para me ter.
Continuo olhando em volta com a velha visão de sempre.
Compreendo que desejo demais mas coloco em prática muito pouca coisa. É como andar em círculo, sem acrescentar nada a ninguém e nem absorver nada da vida. Cada rua, cada estrada percorrida é uma novidade sem graça. Não existe objeto que desperte a atenção. Procuro não ser eu mesma, assim "utilizo" de um olhar novo e abandono velhas manias. Olhares viciados.
Não acredito que tenha coisas novas ainda para conquistar, no entanto sou capaz de grandes passos para pequenas recompensas.
Ando por ai à procura de algo que não sei exatamente o que é, mas que busco arduamente. Observo que muitos lugares perderam o seu encanto, antigas amizades perderam a graça.
Não existe mais o singular, o ímpar. Tudo ficou evidente demais. O que era simples, ficou simplório, o que era gostoso virou banal.
Sigo em busca do olhar do estrangeiro, aquele que se emociona com o básico, que chora por pouco, que sorri por nada.
Aquele olhar explícito, terno, contraditório, cheio de vida, com fome de novidades, de belezas. Olhar este que só vou conseguir ter novamente quando acordar com outro estado de espírito. Este de agora só me assombra. Não vejo nada que não seja o básico.
É urgente.
É importante.
É necessário.
Preciso recolher meus fragmentos que ficaram pelo caminho.
Preciso me reencontrar...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Aos que virão

Depois de um tempo "fora" resolvi voltar ao velho hábito: escrever...
Me assombra demasiadamente o futuro que me aguarda.
Crio expectativas e na maioria das vezes guardo-as no armário.
O receio de me deparar com velhos fantasmas me assusta, é complicado demais olhar em volta e não ter aquele apoio de outrora.
Vejo, depois de algum tempo, as coisas de outra forma, com os mesmos velhos olhos de antes, mas o contexto é diferente.
As coisas estão estéreis, houve mudanças que nem sempre consegui acompanhar.
Criamos estereótipos, não conseguimos nos livrar deles.
Velho sonho: abrir os olhos e me deparar com uma sociedade mais justa, onde muitos podem fazer parte do círculo de poucos, andar pelas ruas dessa frenética São Paulo sem me preocupar com possíveis perigos. Isso está muito distante de acontecer?
Alguém irá me responder?
Talvez isso seja só utopia, demagogia, ou tantos "ias" que são politicamente corretos.
Não sei.
Olhando pela janela agora o que vejo é uma cidade grande, linda, que se perde no seu próprio horizonte, sem perspectiva de futuro, nem para ela quem diga para mim!
Somos vítimas de nós mesmos.
Somos soldados sem exército.
Somos fruto de grandes árvores mas jogados em cestos incertos.
Como viver assim?
São perguntas demais?
Talvez...
Mas adoraria saber aonde se esconde esse objeto de meu desejo.
Será que um dia vou encontrar?
Vai saciar a minha sede de ir até as últimas consequências para ser feliz?
Estou no aguardo.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Flâneur

Terrivelmente, a multidão que se arrasta pelas ruas frenéticas de São Paulo é de mesma igualdade e tamanho do dândi e do flâneur de Baudelaire.

O flâneur que caminha a esmo pelas ruas parisienses do século 19 é o mesmo que vaga hoje pelas ruas desumanas de São Paulo do século 21.

Rastejam, na velocidade da contemplação. São minoria. Efêmeros. Respiram com dificuldade, olham com estranheza e admiram o belo e sua singularidade deslumbrando aquele momento único.

Sou um flâneur que caminha tranquilamente pelas ruas observando cada detalhe, sem ser notada, sem me inserir na paisagem, assim como Baudelaire gostaria que fosse.

Caminho pelas ruas sinuosas como um estrangeiro. A sua paisagem foi feita para ser vista pelo caminhante solitário, pois somente a passo ocioso pode-se admirar toda a beleza de suas ruas com seus ricos detalhes, como uma pintura moderna. Diferente da Paris dos cafés mas semelhante, com suas ruas de histórias e sua multidão desenfreada.

sábado, 23 de janeiro de 2010

O Tempo

De todas as vezes que andei pelas ruas, foram poucas as que notei como é belo o feio.

Aqueles casarões abandonados em alguma rua suja e malcheirosa, algum momento foi o palácio de um sobrevivente do caos do dia a dia.

Caminho observando os detalhes, e cada um deles me surpreende de alguma forma.

Não apenas vejo, mas olho. Olhando entendo. Entendo que a beleza não está no todo, mas nos pequenos detalhes.

Vejo lindas arquiteturas em prédios velhos e abandonados, invisíveis à multidão.

Questiono a sua história, descubro fragmentos de vida, restos sub-humanos de olhares que o tempo não levou.